16.1.07

Despedir despedir despedir...

Por vezes ouvimos quantos, saudosos, odeiam despedidas; quantos, despedientes, odeiam despedir; quantos, inconformados, odeiam ser despedidos. Desprestigiada fica então, a despedida, por descompreensão, desolada. Descompreendida não só na sua abrangência léxica como na sua importância em ser o fator primordial na descontinuidade, necessária à construção do novo: Ao despedirmo-nos do estabelecido para rumar ao que criamos; ao darmos as costas ao desimportante devido às resoluções implicadas de um determinado fim.

É possível, através de uma outra perspectiva, desvincular a idéia de despedida da que temos no cotidiano: a despedida de alguém que parte a um novo destino; ou mesmo da sua percepção como algo irreversível, irremediável e a estabelecer como algo mais freqüente em nossas vidas. Não só a despedida de alguém querido que fez suas malas, mas a despedida de um conceito, de uma atitude freqüente, de uma forma de pensar, de uma escala de valores, de nós mesmos, enfim.

Ela é mais saudável e presente do que se pensa. Está presente no antagonismo entre o Dionisíaco e o Apolíneo, na constante destruição e criação. A cada superação, a cada boas vindas, uma despedida, inevitavelmente, ocorreu. A sua irreversibilidade é contrariada por sabermos que ao novo criado também seguirá um adeus, tendo em vista que o tempo não respeita a novidade. Ainda em função deste, pela sua ação inexorável, podemos fazer alusão à idéia do eterno retorno, na qual, por mais que se destrua, futuramente o quebrado irá se reconstituir.

Dessa forma, é inconcebível o ódio a algo tão presente e necessário quanto respirar e tão reversível como o pensar. Oras, é ao despedirmo-nos de alguém antes de uma viagem que criamos a possibilidade de um novo futuro. É ao despedir, despidos não somente de nós mesmos, mas de valores, crenças, atitudes e dos indiscutíveis e sublimados preconceitos que deixamos de ser insignificantes e irrelevantes por tão conformados e iguais. Não é através do que somos que conseguimos mudar o que nos é aversivo, mas ao despedirmo-nos do que somos e nos recriarmos através de um permanente esforço de superação.

É com o desbaste que, na agricultura, despede-se de plantas ou árvores semeadas a fim de que as restantes possam se desenvolver melhor. É ao nos despedir de uma esperança que voltamos à realidade e criamos, inevitavelmente outra para perseguirmos. Por mais desaconselhável que pareça, é necessário desacamar e, daí, desmedrosos, desabar, desabafar, desdenhar, desabençoar, desvairar e desafinar ao erigir, compreender, retificar... Tudo isso sem deixar de despaulificar os acomodados, mas sem desbotar ou ser desamável, para daí desoprimir de si mesmos os que não se despedem.

Assim como as presas que logo que despontam em nossas bocas passam a despontarem-se, é pela nossa própria finalidade que tentamos o novo e a abundância, nos desgastando. É pela nossa própria essência que somos o fim de nós mesmos e, depois de tantas despedidas, quando há de se nos despedir uma flecha derradeira e inevitável, esperarmos que tenhamos nos saído bem em todo e cada adeus, para que pouco antes de desviver, ninguém se despeça à francesa.